A Constelação
A minha constelação é uma viagem por territórios de desconforto. Feita de restos, gestos repetidos, matéria íntima e memória fragmentada. O corpo aparece como ruína e como denúncia. Não procuro beleza — procuro aquilo que incomoda, que resiste, que não quer ser esquecido. A imagem é confronto: uma tentativa de tocar no que foi silenciado, escondido ou cuspido para fora.
Francesca Woodman Quando puder, deixo uma rosa na tua campa
“Sou um corpo falante / um corpo que dança / um corpo que rui / um corpo que insiste”
(Modelos Vivos, 2010)Ricardo Aleixo
RICARDO ALEIXO/ MODELOS VIVOS
Atmosfera silenciosa, quase ritualística —
um relicário do que já foi vivo.
um relicário do que já foi vivo.
“As palavras têm sempre um corpo / por onde escorre o tempo.”
(O Livro das Semelhanças, 2015)
(O Livro das Semelhanças, 2015)
Ana Martins MarquesPALAVRAS DE ANA MARTINS MARQUES
A MÃE
“A memória é uma cidade pequena: tudo está perto demais.”
(A vida submarina, 2009) Ana Martins Marques
(A vida submarina, 2009) Ana Martins Marques
Eu carregava um corpo no saco.
Ninguém viu...
Um corpo desfeito, mas ainda presente.
Não se vê, mas pulsa sob camadas de tinta, fios, pregos e ruído.
Cada material carrega um gesto — conter, amarrar, esconder, perfurar.
Esta é a topografia íntima de um corpo que resiste à legibilidade.
Já não é autor, nem objeto. É território.
Fragmentado, tenso, vivo — como se o próprio ato de criação
fosse uma ferida que se reabre cada vez que se tenta nomeá-la.
“há um cadáver na sala de estar / e ninguém quer falar sobre isso.”
(Modelos Vivos, 2010) Ricardo Aleixo
(Modelos Vivos, 2010)
Não a que aquece,
mas a que ameaça consumir.
Chama o que não cabe,
o que excede a imagem,
o que nos olha por trás da beleza.
Chama,
como quem invoca —
o abismo do prazer que fere,
o terror que nos suspende.
Kant diria:
é sublime.
Mas não é o mundo que é grande —
— sou eu que me rasgo diante dele.
Uma flor não basta.
Um corpo, já sem mãe,
pulsa em silêncio.
Chama.
Como verbo.
Como incêndio.
Como juízo.
Chama (o sublime de Kant)
e vê se ele responde.
Objetos naturais — rodelas de madeira, conchas, sementes, vidro —
acondicionados em saquinhos plásticos como relíquias sem nome.
Não são lembranças de algo específico, mas vestígios do que me atravessa.
Guardei-os assim, individualizados, não para esquecê-los,
mas para poder olhar de novo, com outros olhos,
quando o tempo os devolvesse com outra camada de sentidos.
Talvez a memória não seja aquilo que guardamos,
mas o modo como reconfiguramos o que um dia nos tocou.
Stalker
Margarita Terekhova
AM
-memória (familiar, corporal, não vivida)
-luto (velado, simbólico)
-identidade (fragmentada, subversiva)
-o corpo (como marca, como lugar de criação e perda)
-a estética da ausência, do abjeto, da ferida
-a morte do autor / da mãe / da promessa
-a artificialidade emocional