A ideia nasce de um CORPO.
Um corpo que se divide, mas que é um só.
Começa com o polvo — matéria orgânica, grotesca, ambígua — um corpo sem estrutura fixa, que escapa à forma e à função. Um corpo estranho, que representa o bloqueio, a ausência de obra, o desconforto da criação.
Depois, transforma-se. O corpo passa a imagem, a tecido, a relevo. É desconstruído, remendado, reconstruído.
Não é mais apenas corpo biológico: torna-se corpo artificial, corpo impresso, corpo moldado por memória, por ausência, por linguagem.
A inteligência artificial participa deste percurso — como tentativa de devolver forma ao que não está mais presente. A tecnologia surge como uma extensão do desejo, como reconstrução daquilo que já não se pode tocar.
No fim, tudo se encontra em duas molduras:
uma guarda o corpo inventado, resgatado, exaltado.
a outra guarda o corpo da mãe — já ausente, mas ainda presente na memória, nas camadas, nas frases e na imagem que não se apaga.
O polvo e a mãe parecem opostos, mas são o mesmo.
Tudo isto é corpo.
O polvo é corpo.
Um corpo visto como grotesco, alienígena, predador.
Um corpo que oprime.
No início, rejeita-se a imagem, recusa-se a forma.
Mas aos poucos, o que era excesso transforma-se em matéria.
O corpo torna-se moldura.
Torna-se arte.
Torna-se decoração.
Mas a imagem esgota-se.
Foi nomeada como literal.
Foi esvaziada por olhares que não escutaram o que vinha de dentro.
A superfície tornou-se ruído.
E o corpo precisou rasgar-se para voltar a dizer.
Como um túmulo.
Que guarda o corpo que um dia foi mau — talvez tenha sido.
E que hoje é homenageado.
É lembrado com flores falsas, com frases suaves, com ornamentos plásticos.
Há beleza na morte, mesmo que construída.
Mesmo que inventada.
A artificialidade não mente:
só tenta resgatar aquilo que a memória, sozinha, não suporta carregar.
O corpo, o polvo, o túmulo, a mãe —
tudo isto é corpo.
Nada disto é literal.
Versão em prosa:
Este projecto parte da ideia de corpo — um corpo que, embora se divida em dois momentos, é sempre o mesmo. No início, o polvo. Matéria orgânica, opressora, predadora. Um corpo estranho, grotesco, alienado. A sua presença física, desajeitada, foi registada em imagem. Mas essa imagem, quando apresentada, foi rapidamente reduzida à palavra “literal”. O olhar que lhe foi lançado esvaziou-a, cansou-a, desfez-lhe a potência. E foi justamente nesse esgotamento que o corpo encontrou outra via: a da matéria, a da forma em mutação, a da reconstrução. O corpo que era imagem passou a ser relevo, dobra, superfície viva.
Este mesmo corpo, que antes era polvo, transforma-se em tecido, em moldura, em escultura doméstica. Uma nova matéria simbólica, apaziguada, quase decorativa. Tal como o túmulo — espaço onde até um corpo que talvez tenha sido mau, hoje é reverenciado. A morte torna tudo digno: o corpo é lembrado, enfeitado, artificialmente embelezado. Flores de plástico, frases suaves, homenagens coladas à ausência.
Entre o grotesco e o belo, o natural e o artificial, a recusa e a homenagem, o corpo encontra um lugar. Não são dois — o polvo e a mãe — são o mesmo. Um corpo transformado, rasgado, reconstruído. Um corpo que se reconfigura para poder ser dito de novo.
Nada disto é literal.
Corpo em dois tempos
O corpo que, embora se divida em dois momentos, é sempre o mesmo. No início, o polvo. Matéria orgânica, opressora, predadora. Um corpo estranho, grotesco, alienado. A sua presença física foi registada em imagem, e posteriormente apresentada como obra. Mas essa imagem foi rapidamente reduzida à palavra “literal”. A leitura dos pares — colegas e formadores — esvaziou-lhe o potencial simbólico, classificando o visível e silenciando o invisível.
Ruptura da imagem
Foi precisamente nesse esgotamento da imagem que o corpo encontrou outra via: a da matéria, da forma mutante, da reconstrução. O corpo, antes imagem, transforma-se em relevo, dobra, superfície viva. As impressões tornam-se tecido, escultura, moldura. E, com isso, surge a tensão entre o que é natural e o que é fabricado — entre o que se viveu e o que se inventa.
Entre o túmulo e a homenagem
Tal como um túmulo — espaço de luto e consagração — o corpo é ressignificado. Mesmo aquele que foi rejeitado ou considerado "ruim" torna-se digno de memória. A morte embeleza. A ausência é enfeitada por flores artificiais, frases de homenagem e elementos decorativos. A artificialidade não mente: apenas ajuda a suportar aquilo que a memória, sozinha, não consegue carregar.
Entre o polvo e a mãe
Este corpo — que começou como polvo e termina como memória da mãe — não são dois. São o mesmo. Um corpo rasgado, reconstruído, inventado. Um corpo que se oferece à imagem e, ao mesmo tempo, a recusa. Um corpo exposto entre a matéria e o símbolo. Tudo isto é corpo.
E nada disto é literal.
O que era plano começou a dobrar-se. A imagem fragmentou-se, rasgou-se, reconstruiu-se. O corpo passou a existir na superfície e na profundidade, no que se vê e no que se adivinha. Já não se trata de representar, mas de fazer emergir uma presença — uma vibração entre o físico e o ausente, entre o invisível e o que resiste à nomeação.
Ao longo deste processo, a artificialidade torna-se presença. Não como ilusão, mas como tentativa. Como mecanismo de sobrevivência. Como linguagem criada para suportar a ausência. Uma ferramenta que resgata fragmentos e projeta outros, que reconstrói o que já não pode ser tocado, e inventa aquilo que nunca existiu. O corpo transforma-se, adapta-se, sobrevive à leitura que lhe foi imposta.
No segundo capítulo, o corpo torna-se símbolo. Aquilo que antes era rejeitado ganha contorno, é moldado, transformado, ornamentado. Tal como um túmulo — onde até um corpo mal recordado se torna digno de homenagem — também aqui há uma reverência artificial. Há decoração sobre a memória. Há beleza construída sobre a ausência. Há silêncio sob camadas. O corpo da mãe atravessa essa dimensão simbólica e funde-se com o corpo do polvo. Ambos são corpos perdidos e reconstruídos. Imagens que deixaram de ser imagem. Matéria que já não se pode nomear.
No fim, tudo se reúne em duas molduras:
o corpo que foi reconstruído;
e o corpo que permanece como memória.
São dois, mas são o mesmo.
Tudo isto é corpo.
Nada disto é literal.
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