R 10 — Construção (1971), de Chico Buarque – O Corpo no Trilho, O Corpo na Estrada







“Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.”



A frase repete-se ao longo de Construção, música de Chico Buarque lançada em 1971. A letra narra o dia de um operário comum, descrevendo seus gestos habituais — sair de casa, beijar a esposa, caminhar para o trabalho — até que, de repente, ele cai e morre. Mas a forma como essa morte é tratada não carrega tragédia ou luto, e sim indiferença: ele atrapalha o trânsito. O corpo que, há pouco, fazia parte da engrenagem da cidade, transforma-se num contratempo.

A repetição dos versos reforça essa lógica. Pequenas variações mudam a ordem das palavras, mas o sentido final permanece inalterado. O operário cai sempre, e a cidade sempre continua. A morte, que deveria ser um momento de ruptura, não interrompe o mundo — apenas o atrasa por um instante, antes que tudo volte a funcionar normalmente.

O comboio parou. No início, um silêncio absoluto. Depois, resmungos. O tempo passou e alguém comentou que isso tem sido corriqueiro. O corpo no trilho já não era um evento, mas uma ocorrência frequente, mais um atraso na rotina. A morte, ali, já não surpreendia.

Esse detalhe fez com que tudo se tornasse ainda mais incômodo. O corpo era agora um dado estatístico, parte de uma repetição sem impacto. Ninguém questionava. Não havia espanto, nem indignação. Apenas o desconforto pelo tempo perdido, pelo desvio inesperado no percurso de volta para casa.

O silêncio no comboio ecoava outro silêncio — aquele que veio com a notícia da mãe encontrada numa autoestrada. Não estar lá não significa não ver. A mente cria a cena, projeta as imagens que nunca foram vistas, preenche as lacunas do que não pôde ser vivido. A estrada à noite. O corpo caído, imóvel. Os faróis iluminando, sem que ninguém possa fazer nada. O momento em que alguém encontra, o instante em que tudo já aconteceu.

Como em Construção, onde o operário cai de novo a cada estrofe, em diferentes ordens, mas sempre com o mesmo fim, a cena repete-se. E talvez seja essa a questão — o peso da repetição. O corpo no trilho, o corpo na estrada, os resmungos no comboio, a frase solta de que “isso tem sido corriqueiro”. A banalidade da morte transformada em rotina.

O comboio voltou a andar, o tráfego voltou a fluir, e o corpo que antes era um obstáculo desapareceu. Mas dentro, a imagem ficou, insistindo, tentando encontrar um lugar para existir. Talvez seja isso que nunca se resolve — a tentativa de dar contorno ao que ficou suspenso. Como se ao reviver esse instante, fosse possível modificá-lo, devolver-lhe um significado, fazê-lo parar de se repetir.

Mas o tempo não responde. Apenas segue, como o comboio que volta a andar, como a estrada que nunca para de receber corpos que se tornam ausência.



Link para a música no YouTube: https://youtu.be/cMwmBfEtiq0?si=jyKV3QA7bYWDQCQ0

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