R 13 Les Amours de la Pieuvre (1967) - O Polvo Como Símbolo de Mutação


Direção: Jean Painlevé


O filme Les Amours de la Pieuvre, de Jean Painlevé ¹, é um documentário poético sobre a vida dos polvos, misturando ciência e uma abordagem quase surrealista da existência desses animais. Painlevé não trata o polvo apenas como um ser marinho, mas como uma criatura de mistério, transformação e adaptação constante.

Esta visão dialoga diretamente com o conceito de Interstício. No meu projeto, o polvo é um símbolo de deslocamento, uma presença que nunca está completamente no lugar certo, mas que se molda ao espaço onde se encontra. Em Les Amours de la Pieuvre, o polvo é apresentado como um ser em constante mutação, que muda de forma, de cor, de comportamento, como se nunca tivesse uma identidade fixa. Esse estado fluído, indefinido, é precisamente o que caracteriza o interstício — esse espaço entre um estado e outro, onde tudo é instável.

Painlevé também trabalha com uma estética que transforma o polvo numa entidade quase alienígena. Os seus movimentos, a forma como desliza pela água, como se dobra e se expande, criam uma sensação de algo que não pode ser completamente apreendido. Esse efeito também está presente no meu projeto: ao retirar o polvo do seu contexto natural e inseri-lo em cenários banais, crio essa mesma sensação de estranheza, um organismo que está presente, mas que ao mesmo tempo não pertence.

Outro ponto interessante é a forma como Les Amours de la Pieuvre mistura documentário e imaginação. Há um jogo entre o científico e o poético, entre o real e o fantástico, e esse equilíbrio entre racionalidade e subjetividade também se reflete em Interstício. O polvo no meu trabalho não é apenas um objeto, mas um conceito que oscila entre o físico e o simbólico, entre o concreto e o abstrato.

Assim como em Mulholland Drive, onde as identidades dos personagens se dissolvem e se transformam, em Les Amours de la Pieuvre, o próprio polvo se apresenta como um ser que nunca é uma coisa só. E essa noção de identidade fluída, de algo que escapa a qualquer definição rígida, é exatamente o que sustenta o conceito de Interstício — um espaço de passagem, de hesitação, de metamorfose.

No fim, Painlevé transforma o polvo numa figura que é tanto científica quanto poética, tanto física quanto metafórica. Em Interstício, essa dualidade também existe: o polvo é, ao mesmo tempo, um organismo real e um símbolo do bloqueio criativo, um ser que se adapta e se molda, mas que também pode ficar preso no tempo, suspenso entre ser e não ser.



1.  Jean Painlevé – Les Amours de la Pieuvre


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