R 2 - Albert Camus – O Estrangeiro



Em O Estrangeiro, Albert Camus apresenta a história de Meursault, um homem que vive com uma apatia radical em relação ao mundo e aos acontecimentos ao seu redor. A sua falta de envolvimento emocional, tanto diante da morte da mãe quanto do seu próprio julgamento, transforma-o numa figura paradoxal: ao mesmo tempo que é protagonista da sua vida, age como um observador distante, sem tentar justificar as suas ações ou procurar um sentido para elas.


A narrativa explora a filosofia do absurdo, conceito central no pensamento de Camus. O absurdo surge do choque entre a busca humana por sentido e um universo indiferente, onde nenhuma lógica ou moral superior organiza os acontecimentos. Meursault incorpora essa condição ao não oferecer explicações para o que faz ou sente, recusando-se a desempenhar o papel que a sociedade espera dele. O seu comportamento é visto como uma ameaça, pois desafia a necessidade humana de interpretar o mundo através de significados pré-estabelecidos.


O julgamento de Meursault revela a imposição da ordem social sobre a existência individual. A sociedade não o condena apenas pelo crime cometido, mas pela sua recusa em aderir às normas emocionais e morais convencionais. O que está em julgamento não é apenas um ato, mas a sua incapacidade de simular sentimentos que tornariam a sua presença mais aceitável para os outros. Esse processo evidencia como a indiferença pode ser mais perturbadora do que a violência, pois confronta a ilusão de controle e coerência que sustenta as relações humanas.


No desfecho do romance, Meursault aceita plenamente a sua condição absurda. Ao abandonar qualquer esperança de sentido ou redenção, alcança uma forma de liberdade. Sua aceitação do absurdo não é uma derrota, mas uma libertação das expectativas impostas pelo mundo. Camus sugere que a verdadeira revolta não está em resistir ao absurdo, mas em aceitá-lo sem buscar explicações reconfortantes.


Assim, O Estrangeiro apresenta um protagonista que personifica a condição humana no universo do absurdo, desafiando as convenções que sustentam a ilusão de um mundo ordenado. A obra questiona a relação entre identidade, moralidade e o papel das emoções na construção da sociedade, deixando o leitor diante da inevitável reflexão sobre a fragilidade dos significados que conferimos à existência.



Excerto: “Hoje, a mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei.”

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