Projeto sobre o corpo
O projeto A Morte do Autor nasceu de uma busca por um corpo forte, resiliente, com marcas e tensões que refletissem a memória da carne e da experiência. A primeira tentativa surgiu através da inteligência artificial, onde a máquina gerou corpos idealizados, sem vida e sem história. A insatisfação com esses resultados levou a um processo de destruição e reconstrução: as imagens foram recortadas e remontadas em colagens, mas ainda assim a ausência de um corpo verdadeiro permanecia.
A questão central do projeto reside no deslocamento entre o real e o fabricado, partindo da imagem do nascimento – um corpo arrancado do corpo da mãe. A memória desse instante, capturada em fotografia, atravessa toda a narrativa do projeto, refletindo sobre a violência simbólica do corte e do rompimento. A reconstrução desse corpo se dá através da materialidade do tecido, onde um corpo feito de pano é carregado pela cidade, atravessando diferentes espaços e contextos, como um vestígio de algo perdido.
O percurso conduz ao cemitério, onde uma promessa antiga precisava ser cumprida: deixar uma rosa no túmulo da mãe. No entanto, o que se encontra são rosas artificiais, testemunhos de um luto domesticado, sem cheiro e sem morte. A artificialidade das homenagens se torna um espelho da própria investigação do projeto – o que significa recordar, quando a memória é mediada por simulacros? O que resta de uma presença quando tudo é substituído por símbolos vazios?
No caminho para o cemitério, a captura de sorrisos falsos adiciona outra camada à reflexão. Esses rostos, interrompendo ou cruzando o percurso, carregam em si a performatividade da identidade, um esforço contínuo de adaptação e pertencimento. Aqui, a ideia de autoria se dissolve ainda mais: quem são essas pessoas e quem é o observador? O que é real nesses gestos e o que é encenação?
A Morte do Autor se ancora na teoria de Roland Barthes, que argumenta que a obra pertence ao leitor/espectador e não ao seu criador. A fragmentação do corpo, a substituição da presença pelo objeto e a artificialidade das emoções se tornam dispositivos que questionam a autoria, a identidade e a permanência. A obra não é apenas uma narrativa pessoal, mas uma investigação sobre como imagens e memórias são fabricadas, reconstruídas e, por fim, esquecidas.
A psicanálise de Lacan também estrutura a investigação, especialmente os conceitos de Real, Simbólico e Imaginário. O Real surge na violência do nascimento e no luto que não se cumpre, elementos que não podem ser simbolizados. O Simbólico organiza as convenções que estruturam o luto e a identidade, mas que aqui são colocadas em crise. O Imaginário aparece na tentativa de reconstrução da presença – seja pelo corpo feito de pano, seja pela inteligência artificial, seja pelos gestos capturados no percurso.