O Corpo que Nunca Foi
O Corpo que Nunca Foi nasceu de uma vivência que me marcou profundamente: um corpo coberto no trilho do comboio, onde apenas um ténis escapava da lona. Esse instante, suspenso entre o visível e o invisível, despertou em mim uma inquietação que se transformou na essência deste projeto — um questionamento sobre presença e ausência, sobre o que nos é negado ao olhar.
A escolha do polvo como elemento central surge quase como um gesto inconsciente. Num dia comum, ao sair do comboio após esse episódio, encontrei-me a olhar para um polvo no mercado. Um desejo irracional levou-me a comprá-lo e a levá-lo para casa. A princípio, não havia uma intenção clara, mas algo me impeliu a fotografá-lo, a colocá-lo em contextos deslocados, a observá-lo como se fosse um corpo fora do seu tempo e espaço.
Foi só mais tarde que percebi que este processo estava profundamente ligado à minha própria história. O deslocamento do polvo reflete uma sensação persistente de não pertencimento, que me acompanha desde a infância. Cresci dentro de uma comunidade religiosa extremamente rígida, e desde cedo compreendi que o meu corpo — e o meu pensamento — não se encaixavam. O exílio emocional começou muito antes da minha mudança para Portugal. A imigração apenas tornou mais visível essa sensação: no Brasil, já não me sentia brasileira; em Portugal, nunca sou portuguesa. Onde, então, pertenço?
O polvo levou-me também a um lugar mais íntimo e profundo: a minha relação com a figura materna. A ausência de afeto sempre esteve presente. A minha mãe, ainda muito jovem quando engravidou, nunca escondeu que a minha existência foi um acidente. Essa percepção moldou a infância e, inevitavelmente, a minha identidade. Mais tarde, a forma como ela morreu — encontrada numa estrada, após horas de incerteza — tornou-se uma memória traumática e uma ferida aberta, que talvez eu tente, sem saber, traduzir através da imagem.
Ao fotografar o polvo fora do seu habitat natural, transportando-o para espaços domésticos e urbanos, materializei esse deslocamento. Um corpo que não pertence, que é devolvido a lugares que não o reconhecem. Ele tornou-se presença e vestígio, memória e matéria sem nome. A última fotografia — uma lágrima negra escorrendo — tornou-se o desfecho natural deste processo. Era o momento de parar, de libertar, de devolver ao rio.
Algumas ideias de Julia Kristeva — sobretudo a noção de abjeção — foram importantes para pensar como certos corpos perturbam. Para mim, o polvo, como corpo deslocado e estranho, provoca essa ambiguidade: entre fascínio e repulsa, tal como os traumas que tentamos afastar, mas que sempre regressam. Não se trata de aplicar teoria, mas de reconhecer que o que criei me leva a pensar com essas autoras.
O mesmo acontece com a psicanálise lacaniana. Segundo a minha leitura, o que Lacan chama de “o real” — aquilo que escapa à linguagem e à simbolização — está presente em imagens que me habitam: o corpo no trilho, o corpo da minha mãe na estrada, o corpo do polvo na cama. São imagens que nem sempre mostro, mas que estão na origem do meu olhar.
O Corpo que Nunca Foi questiona ainda a exigência de produtividade constante, como se só o corpo que age, performa ou entrega pudesse ser validado. Ao contrário, reivindica a pausa, o silêncio e a hesitação como partes legítimas da criação. Este projeto não nasce da certeza, mas da dúvida. Do que não chegou a ser, mas que insiste em deixar marcas.
1. Kristeva, Julia. Poderes do Horror: Ensaio sobre a Abjeção. Paris: Éditions du Seuil, 1980. Disponível em: https://www.academia.edu/18298036/Poderes_do_Horror_de_Julia_Kristeva_Cap%C3%ADtulo_1.
2. Jacques Lacan, Os escritos técnicos de Freud: Seminário I (1953-1954), fixação de Alain Miller (Lisboa: Dom Quixote, 1986), 105.